terça-feira, 9 de maio de 2017

Livre-Arbítrio

Sem tempo para traçar uma rota de fuga, decido apenas observar apaticamente enquanto ele discorre sobre os seus padrões deturpados de moralidade. Apesar do meu desespero evidente e dos esforços para evitar um embate violento, os monólogos intermináveis e desgastantes tornaram-se rotineiros a cada encontro: a implicância com minhas tatuagens originam críticas que tencionam salvar uma alma impura da degradação eterna.

(Rabiscar o corpo é atitude diabólica!)

A série de conversas irritantes contém instruções valiosas que me fazem cogitar a possibilidade de engolir a minha cabeça. Porém, consciente de suas tentativas infrutíferas, meu único receio é o abandono da sua agressão passiva e a adoção de métodos diversificados que incluam me açoitar com o Rosário, espancar com uma Bíblia ou vociferar maldições em Latim.

(Se você já foi alvo do fanatismo religioso vem cá, me abraça!)

Conviver com a perturbação ocasional de certas perguntas imbecis ou de inúmeras perspectivas negativas me tornam apta a conter uma combustão espontânea ou qualquer ímpeto homicida. Mas cá entre nós? Percebi que nunca haverá negociação com quem te considera a Mensageira do Apocalipse! E, não. Não pense que sou uma criatura sombria sedenta de sangue ou possuo o 666 cravado na testa: a miséria de minha condição reside exclusivamente na cegueira espiritual - na atitude pagã de ousar desfrutar de minha própria liberdade.

(Ui. Me deixa!)

segunda-feira, 10 de abril de 2017

Feridas Ocultas

Quando uma nuvem negra de melancolia paira repentinamente sobre nós, a luta violenta para conservar a alma impassível e os olhos enxutos é esforço vão. Uma boa memória é a sentinela mordaz que me obriga à reconstituição de eventos dolorosos e de sórdidos pormenores que demonstram apenas o aspecto menos nobre de minha natureza: sou escrava das lembranças inúteis, refém de um passado moribundo do qual não consigo me desvencilhar. 

(São tantas as verdades incômodas que gostaríamos de esquecer!) 

Não houve espaço para justificativas covardes, afinal, decência seria não persistir em erros que insisto cometer - alguns pecados não podem ser redimidos e certas falhas não serão perdoadas, pois, não merecem o direito à retratação. Mesmo uma punição justa e bem aplicada não é capaz de dissipar as mágoas que tornam-se feridas gangrenadas alojadas em nosso espírito. 

(Existem enfermidades incuráveis!) 

Sem resquícios de satisfação interior, optei simplesmente por me afastar dos escombros a passos largos e com fria determinação. Porém, a fuga cobra o seu preço: o remorso é uma moléstia que aflige, que maltrata o coração. Apesar da legitimidade do sofrimento, certas escolhas determinam o nosso destino e conviver com a turbulência de emoções é apenas a consequência dos amores mal resolvidos, fantasmas que nos assombram cada vez que olhamos para trás.

sábado, 11 de março de 2017

Nocaute

Não, eu não odeio o carnaval - não assumo nenhuma postura ideológica radical ou conservo qualquer repulsa gratuita pela diversão alheia. Obviamente, não faço o gênero "samba, suor e ouriço" e tampouco fui algum dia seduzida pelo mágico espírito da Sapucaí. Admito, aliás, que a mistura de lycra, glitter e paetês é assustadora e muitas vezes transforma-se em um show de horrores cintilante e multicolorido - mas nada que me cause pesadelos, afinal de contas.

O fato é que toda essa alegria exagerada me proporciona, ao menos, um feriado prolongado - e só Deus sabe o quanto necessito de uma folguinha! Assim, a viagem foi programada desde o ano passado, pois, se é para exercitar a paciência que seja com os amigos: acomodar mais de vinte pessoas em um único lugar nunca foi tarefa fácil, contudo, o plano parecia eficaz apesar de não muito bem articulado.

Últimos preparativos realizados para a jornada, pessoas prontas para dar um fim ao bronzeado de escritório, contagem regressiva iniciada e... minha casa pegou fogo! Um método interessante e com efeito imediato: sucesso total na destruição de todas as esperanças carnavalescas. Olha, eu sei que situações surreais são típicas na minha vida (tão cômicas quanto absurdas), mas confesso que algumas estão ultrapassando os limites - portanto, não estranhe se uma bigorna cair em minha cabeça de repente.

Puta merda, bicho. Já deu!
Chega de enfiar agulhas no meu boneco de voodoo.

domingo, 5 de fevereiro de 2017

Verdades Amargas

Eu proponho um brinde às paixões fulminantes: aquelas que provocam vertigens, soltam faíscas e ardem na alma! Quem não gosta, afinal, do friozinho na barriga, da sensação de borboletas no estômago e das pernas bambas a cada nova descoberta? São paixões que atraem na mesma proporção em que amedrontam - tão intensas quanto efêmeras e conforme se esvaem, deixam o nosso coração em estado avançado de putrefação.
 
(Mas quer saber a verdade?)
 
Despir as roupas é muito fácil, complicado mesmo é despir as máscaras. Vomitar declarações fajutas próprias de um amor dissimulado é simples, difícil é permanecer voluntariamente apesar de todos os medos, inseguranças e imperfeições. Somente quando a ficção cede lugar à realidade e a rotina não é capaz de massacrar uma relação, a entrega pode ser plena - nunca subestime o poder mágico da sucessão dos dias que fazem as barreiras que criamos ao longo dos anos desmoronarem.
 
(Acredite: o tempo nem sempre é o vilão do nosso conto de fadas.)
 
Desculpe, mas dispenso qualquer relacionamento com prazo de validade. Ainda procuro secretamente alguém que não me considere apenas um maldito pedaço de carne - chega dos sentimentos ardilosos que bóiam entre um arrogante desinteresse! Hoje em dia almejo algo mais profundo, mais absoluto: talvez até uma convicção ameaçadora de quem sabe o que realmente deseja.

terça-feira, 10 de janeiro de 2017

Do Avesso

Dia 10 de Janeiro é uma data propícia para a pergunta inevitável: O que eu fiz da minha vida até agora? Sempre considerei o meu aniversário uma ocasião adequada para listar em minha mente todos os fracassos, as inúmeras possibilidades que simplesmente joguei no lixo - algo que realizo com muito êxito, aliás. É o típico momento em que você me encontraria vulnerável, ferida e indefesa por motivos óbvios, onde uma crise existencial não seria surpreendente, mas sim, plenamente justificável.

Eu cheguei à conclusão de que a vida me trata de forma muito canalha: afaga, porém, chuta o meu traseiro logo em seguida. Mas nessa relação de amor e ódio, entre carícias e bofetadas, eu consigo sobreviver nem que seja por teimosia. Apesar do meu ritmo frenético e insalubre é inegável que estou em paz comigo mesma - desisti de buscar uma horrenda perfeição que nada faz além de perpetuar a chatice. Hoje me encaixo (e muito bem!) na classe dos que andam desastradamente na contramão.

Portanto, aos amantes da sanidade que me julgam imprudente ou incorrigível, alerto que avalanches de conselhos são inúteis: eu continuarei rindo até perder o fôlego, tomarei algumas decisões viscerais ou me envergonharei publicamente de vez em quando. Não tem jeito! E para as pessoas desprovidas de sentimentos com senso de humor nulo, deixo aqui os meus eternos bocejos - afinal, independentemente da quantidade de aniversários celebrados, o meu espírito não criará pés de galinha.

quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

Eu não sou o amor da sua vida


Determinados hábitos não morrem: insisto em mergulhar profundamente em qualquer poça d’água. Eu sei. Eu sei! A culpa é minha. Talvez por não levar em conta milhões de variáveis. Mas, principalmente, por achar que venceria todos os obstáculos.  

(Quanta inocência!)  

Eu sou um desastre, sim. Contudo, não se engane: embora não utilize os métodos mais aclamados pelos psicólogos, tenho plena convicção de que para viver de verdade precisamos estar dispostos a correr alguns riscos. Você pode até censurar as minhas características masoquistas, entretanto, acho que deveria levar a sério quando digo que as dores amenizam e as feridas cicatrizam com o passar do tempo. É preferível dar de ombros diante de um fracasso do que definhar pensando no que poderia acontecer.   

(E isso, meu caro, é questão de escolha! )

Nunca deixarei o meu coração atrofiar. Ele pode se despedaçar um pouco mais a cada embate, porém, quero entregá-lo diariamente e por vontade própria. Sem medos. Sem pretextos. Sem desejos reprimidos. Não vou tolerar apenas uma fagulha, uma pequena centelha - quero explodir de paixão onde exista reciprocidade.

(Aceitar migalhas nem deveria ser uma opção!)  


Eu não sou o amor da sua vida simplesmente porque não preencho nenhum dos requisitos que você estipulou. Mas, cá entre nós?  Eu sinto muito por você optar pela solução ligeiramente mais fácil.  E fácil, nesse caso, sempre foi desistir. 

quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

Considerações Posteriores


A mensagem na tela dizia que era rápido e fácil. Não uma idéia propriamente original - admito - mas um refúgio onde eu pudesse desabafar todos os meus medos e frustrações, despejar toda a minha incerteza e os segredos resignadamente guardados pareceu interessante. Nada politicamente correto, é claro: apenas uma autobiografia barata.

(E deste modo, em dezembro de 2009, eu criei o meu blog.)

O fato é que desde então, muita coisa mudou. A vida - com sutil delicadeza - me ensinou que você pode cair sozinho ou também pode ser empurrado. Durante muito tempo as coisas perderam o sentido e eu me parti em diversos fragmentos pelo caminho: olhar para trás tornou-se doloroso, afinal, inspirava perguntas demais. Em decorrência disso, quando optei por retornar, algumas postagens foram deletadas - pensei que apagando aquelas linhas pudesse eliminar também o meu passado.

(Que ilusão!)

Mas eu voltei. E mesmo após sete anos as crises frequentes e urgentes continuam: obviamente ainda permaneço flertando com os cantos escuros da minha mente. Porém, a grande surpresa é que vocês estão comigo - e é por isso que venho hoje agradecer! Agradeço aos que me acompanham desde o início. Agradeço aos que mantém contato diariamente. Agradeço aos que escrevem e-mails, publicam comentários  ou apenas abdicam de uns minutinhos do seu tempo para uma visita. Obrigada, gente! Obrigada pelo apoio, pelo respeito e pela compreensão - vocês são especiais e desejo do fundo do coração que continuem fazendo parte da minha vida.

quinta-feira, 3 de novembro de 2016

Sem Expectativas


“- Você não é assim. Mas tenho medo da pessoa que irá se tornar. ”

O profeta da desgraça: alguém que sempre apostou no meu caminho para a autodestruição. Talvez, sua preocupação seja sincera e muitas vezes fundamentada. Contudo, suas palavras apenas me relembram que somos pólos divergentes e há um motivo específico para o sepultamento de nossa relação, apesar de coexistirmos harmonicamente hoje em dia. 

Não posso negar que em determinado momento eu acreditei. Acreditei que existiria alguém transbordando dentre tantas pessoas rasas. Alguém que não desistiria quando tudo parecesse aterrorizante e impossível. Alguém que realmente se importaria. Mas acabou a espera. Diante de meus inúmeros fracassos percebi que a esperança é um fardo monumental para carregar. 

Não, não significa que estou desistindo. Somente abdico insistentemente de enxergar o que os outros negligenciam – é um trabalho árduo! Cansei de ser vítima da superficialidade. Agora serei apenas uma sobrevivente.

sábado, 8 de outubro de 2016

Dor Infindável


Helena.
O nome que remete à mitologia como a mais bela das mulheres - um nome tão fraco para alguém incrivelmente forte. Não apenas bela, pois a beleza - essa qualidade tão efêmera - muitas vezes está associada à superficialidade. Ela sempre foi mais. Mais otimista. Mais corajosa. Mais decidida. Mais humana. 

Nós compartilhamos o mesmo nome mas não o mesmo temperamento. Leitora voraz, dona de uma memória impecável e de uma paciência sem limites - ela, com suas belas palavras, seu olhar sincero e seu sorriso despreocupado nunca se deixou abater por qualquer adversidade. E olha, não foram poucas!  Mas resistir sempre foi uma condição normal de sua existência - afinal não é qualquer pessoa que chega aos 101 anos completamente lúcida, não é mesmo?

Não posso negar que a última semana tem sido uma longa caminhada pelo inferno, a concretização de diversos medos e inquietações: o momento de dizer adeus.  Embora as lembranças sejam ternas, a saudade é dolorida - não consigo imaginar a minha vida sem a sua presença.


Helena.
Dona Helena.
Minha querida Vó Hely.
Obrigada. Foi um privilégio estar ao seu lado.